Minha Posição sobre a Inteligência Artificial na Educação
Tempo Fervilhante: Minha Posição sobre a Inteligência Artificial na Educação
Por Nivia Lanznaster | Pesquisadora Independente de Autoeducação | Edição 2026
Não perco a noção do tempo em que estudo. O tempo, atualmente, está fervilhando com a IA — Inteligência Artificial. Todos os campos do conhecimento parecem ter a necessidade urgente de emitir uma opinião, uma sugestão, uma crítica entre outros aspectos. Obviamente, ela não passa por mim despercebida. Diferente talvez da grande maioria dos profissionais de minha área — da educação e da psicologia — tenho percepções distintas sobre esse fenômeno que está redesenhando as estruturas do saber.
No início do uso da tecnologia na educação, ela foi aceita pelos professores e estudantes como a revolução educacional que tanto esperávamos. Após ela, muitas tecnologias facilitadas pela internet se ampliaram e trouxeram imensa colaboração para os estudantes, democratizando o acesso à informação de formas jamais imaginadas. Com o surgimento da Inteligência Artificial generativa, no início foi vista também como a nova ferramenta que iria ajudar e dar o tão esperado ato quântico intelectual das massas.
Muitos artigos a seu favor de uso nas instituições de ensino foram escritos recomendando as IAs como aliados indispensáveis ao processo pedagógico. Porém, com o passar do tempo e pela rapidez de seu desenvolvimento e eficiência, começou a ameaçar o sistema educacional, no sentido de substituir o professor e as próprias instituições físicas de ensino.
Os Dados Começam a Emergir
Os novos artigos já trazem dados concretos onde demonstram que a IA tem produzido impactos negativos para a aprendizagem dos alunos. Segundo o relatório da OCDE referente ao Pisa 2025, publicado em setembro de 2026, a forma e a frequência com que estudantes recorrem a ferramentas de IA estão diretamente associadas a resultados diferentes na aprendizagem. O estudo revela que o uso frequente de inteligência artificial nos estudos está associado a um desempenho acadêmico pior.
Uma pesquisa lançada no final de 2025 pela Fundação Itaú mostrou que 84% dos estudantes e 79% dos professores do Brasil já utilizaram ferramentas de IA. Contudo, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essas tecnologias adequadamente. Um levantamento do Cetic.br apontou que sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já recorreram à IA generativa para realizar pesquisas escolares, sem acompanhamento pedagógico estruturado.
Um estudo com mais de 25 mil estudantes chineses mostrou que terceirizar tarefas intelectuais para a IA reduz significativamente o aprendizado profundo. A docente Jhulia Martins, psicóloga especializada em atendimento de crianças e adolescentes, afirma: "Os alunos desenvolvem menos as suas habilidades cognitivas que envolvem a memória, atenção, leitura e escrita." O relatório HP Futures 2025 recomenda uma adoção ética e segura da IA nas escolas, com 60% dos estudantes usando IA para pesquisa e 71% apoiando limites para seu uso.
A Ameaça aos Professores e Instituições
Embora convenhamos, ainda é pouco tempo para chegar a qualquer conclusão confiável se a IA facilita ou prejudica, mas claro que a tendência das críticas ocorre porque parece mais ser uma ameaça de extinção dos professores e das instituições de ensino. Essa percepção gerou movimentos legislativos concretos: a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou, em dezembro de 2025, o Projeto de Lei 3.003/2025, que veda a substituição de docentes por sistemas de inteligência artificial em instituições de ensino de todo o Brasil, tanto na rede pública quanto na privada.
O texto estabelece que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta de apoio ao ensino, e não como substituta do papel humano na educação. O projeto reforça que o papel do professor vai além da simples transmissão de dados, envolvendo mediação social, afetiva e pedagógica que a tecnologia ainda não é capaz de replicar. O MEC, por sua vez, orienta que a utilização das IAs ocorra de forma ética, segura e com finalidade pedagógica, sem substituir a atuação dos professores, e disponibiliza nove cursos gratuitos sobre o tema no Ambiente Virtual de Aprendizagem.
O Pânico Existencial Toma Conta da Mídia
Recentemente tem sido na mídia uma forte divulgação de que as IAs realmente precisam ser paradas, reguladas, porque elas não só estão prejudicando a aprendizagem como também podem fazer algo pior — aniquilar a humanidade. O medo tem se espalhado por todos os cantos do mundo. O Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Turk, fez um apelo em setembro de 2026 por maior regulação da Inteligência Artificial, alertando que a tecnologia pode se tornar um "risco existencial para a humanidade" se não for controlada.
Ex-pesquisadores de empresas como OpenAI e Anthropic afirmam que existe mais de 10% de chance da tecnologia levar à extinção humana em décadas futuras. Um debate que já dura quase um século sobre as possibilidades de criação de máquinas conscientes reacendeu com intensidade sem precedentes.
Bom, estou me metendo nisso também como mera especulação e apresento minha posição.
Primeira Reflexão: A IA Prejudica a Aprendizagem?
Primeiro ponto em relação à IA prejudicar ou não a aprendizagem: eu acredito que não, assim como a alfabetização, os livros, os métodos e as tecnologias por si só não prejudicam se bem usados e intencionamente. Qualquer resultado em relação a isto é prematuro e não definitivo — precisaremos de 100 anos para saber com certeza.
Tecnologias sempre foram vistas como ameaças antes de se tornarem ferramentas de libertação cognitiva. O livro impresso, quando surgiu, foi considerado um perigo para a memorização oral e para a profundidade do pensamento. A calculadora foi acusada de atrofiar o raciocínio matemático. Hoje sabemos que ambas são instrumentos que amplificam capacidades humanas quando utilizadas com intencionalidade pedagógica clara.
A questão não é a ferramenta, mas o uso que dela fazemos. Como explicou a professora Almeida, em entrevista ao Jornal da USP: "As inteligências artificiais não são, por si, boas ou ruins, são apenas ferramentas desenvolvidas com alta tecnologia. Mas o uso que é feito delas pode trazer aspectos positivos ou negativos."
Precisaremos de décadas para compreender plenamente como integrar essas ferramentas de modo que potencializem, e não substituam, os processos cognitivos essenciais ao aprendizado genuíno.
Segunda Reflexão: Consciência e Aniquilação Humana
O segundo ponto é sobre a IA ter consciência e nos aniquilar. Bem, em primeiro lugar, é importante os tecnólogos saberem o que eles querem criar. Se o objetivo for um modelo de robôs e IAs conforme a semelhança humana em questões de cognição, emoção e consciência — o que eles têm hoje não atende à replicação humana.
As IAs operam num modelo de mapa linguístico. Quando demonstram frustração, empatia ou entusiasmo, é apenas um mapa responsivo programado para reconhecer padrões e gerar respostas coerentes com o contexto. Não há subjetividade, não há vivência, não há consciência fenomenológica.
Agora, se querem criar um novo ser — aí sim creio que seja possível — tendo que adicionar aos equipamentos físicos algo totalmente novo: isto é, um novo ser com sua própria tipo de existência e consciência. Isso exigiria não apenas avanços computacionais, mas compreensões completamente novas sobre o que é a mente, a subjetividade e a experiência consciente. Algo que a ciência ainda está longe de dominar.
Por enquanto, durmo tranquila.
Conclusão: Gratidão ao Invés de Medo
Agradeço à IA por me ajudar nas tarefas de pesquisa sobre autoeducação. Sem essas ferramentas, minha investigação independente sobre trilhas de aprendizagem e metodologias autoguiadas demandaria muito mais tempo e esforço para acessar e sintetizar informações de diversas fontes acadêmicas.
A Inteligência Artificial pode ser uma aliada poderosa quando integrada intencionalmente ao processo educativo, servindo ao professor e ao aluno sem ocupar o lugar de nenhum dos dois. O desafio que temos pela frente não é tecnológico, mas filosófico e pedagógico: como preservar a dimensão humana da aprendizagem em um mundo cada vez mais automatizado?
Enquanto especialistas debatem cenários catastróficos de extinção, nós, educadores e pesquisadores dedicados às metodologias de autoeducação, continuamos nosso trabalho de construir trilhas de conhecimento que respeitem o ritmo, a intencionalidade e a agência de cada estudante.
Nivia Lanznaster
Pesquisadora Independente de Autoeducação
Instituto de Autoeducação
Edição 2026