História da Repressão: o medo como inimigo silencioso do autoeducador

Prezados leitores do Instituto de Autoeducação,

O artigo anterior terminou anunciando uma alternativa à filosofia de segurança e sanidade: uma segurança honesta, que não precisa de censura para se sustentar. Para construí-la, porém, é preciso descer mais um nível no diagnóstico — do mecanismo institucional para a sua raiz emocional. Pois o círculo vicioso de que falamos não se sustenta por interesse sozinho: ele se sustenta por medo. É o que este artigo examina, e é, possivelmente, o texto mais pessoal desta série até aqui.

Comecemos por uma objeção justa. O leitor do artigo anterior poderá ter pensado: o caso do Comitê Lusk é um episódio histérico de guerra, uma exageração grotesca, e não merece tanto espaço. A objeção tem razão parcial — e é justamente aí que começa a lição. Tendo se armado para derrubar um inimigo e conseguido fazê-lo, o ardor do conflito não baixa de imediato: novos inimigos são procurados e facilmente encontrados. A histeria da repressão provavelmente diminui. Mas há aqui um fato bem reconhecido pela medicina e pela psicologia: na doença, seja orgânica ou mental, o anormal e o excessivo são exageros instrutivos do curso usual das coisas. Eles não existem por si mesmos — representam o funcionamento temporário e exagerado de processos ordinários. A verdadeira questão, portanto, não é saber se aqueles comissários eram medrosos demais e indiscriminados demais em suas denúncias. É saber se eles não oferecem, em tamanho ampliado, a imagem da maneira natural e impulsiva como o homem comum lida com problemas sociais. Tudo o que percorremos nesta série autoriza a suspeita de que sim.

Lembrem-se da afirmação que abriu a série inteira: se os homens puderem olhar para as coisas de forma diferente da que geralmente fazem, vários dos nossos males mais fundamentais se remediarão ou se mostrarão ao menos redutíveis. Entre esses males, um dos mais fundamentais é a atitude defensiva diante da crítica à ordem existente — e a tendência ingênua de classificar os críticos como inimigos da sociedade. Argumentei desde o primeiro artigo que uma compreensão mais completa da história da nossa espécie contribui para a liberdade de espírito necessária a receber críticas e julgá-las com justiça. Agora que revisamos os argumentos de quem suprime a crítica "para evitar a violência", convém lembrar certos fatos históricos frequentemente negligenciados que enfraquecem — quando não desacreditam — a maioria desses argumentos.

O ponto de partida é dolorosamente simples: o homem nunca foi capaz de se adaptar perfeitamente à própria civilização, e sempre houve um stock de injustiça e desajuste que a inteligência poderia ter diminuído. Mas esse sofrimento crônico tornou-se agudo, e observadores cuidadosos expressem a convicção honesta de que, se o pensamento não for elevado a um plano muito mais alto, algum grande revés para a civilização é inevitável. E, no entanto, em vez de submeter as ideias e regras tradicionais a uma reconsideração completa, o nosso impulso continua sendo o que já vimos: justificar às pressas as noções existentes de conduta. Há quem se lisonjeie de que, suprimindo o chamado pensamento "radical", o sistema atual poderá funcionar satisfatoriamente sobre ideias de cem — ou cem mil — anos atrás.

A comparação mais cruel é com o nosso próprio sucesso. Permitimos que o livre pensamento nas ciências naturais transformasse o velho mundo — mas permitimos que escolas e universidades continuassem a incutir crenças e ideais que, quiçá apropriados ao passado, são hoje anacronismos evidentes. A "ciência social" ensinada nas escolas é, em grande parte, uma apresentação ordenada das convenções, em vez de uma convocação a lidar com o romance e os fatos desconcertantes que nos cercam por todos os lados. No alvorecer do século XX, as ciências do homem encontravam-se, apesar de algum progresso, na mesma posição em que as ciências naturais estiveram séculos antes. Hobbes dizia da filosofia escolástica que andava sobre uma perna de frente e outra de costas. A imagem serve perfeitamente à nossa situação: a nossa perna científica — a das ciências naturais — é sã e cresce em força diariamente; seu companheiro, o nosso pensamento sobre o homem e os seus assuntos, é caprichoso e hesitante. Perdemos as esperanças da "iluminação" do século XVIII, quando filósofos confiantes acreditavam que a humanidade se livraria em breve das velhas correntes. Não podemos mais tolerar a precisão especiosa de teorias cujas premissas foram desmentidas pela experiência. Temos de começar de novo — e essa frase, que já ouvimos dos fundadores da ciência moderna, agora se aplica àquilo que mais nos interessa: nós mesmos.

Como fizeram os cientistas naturais? Perceberam cedo o caminho árduo que tinham de percorrer — e sobretudo, que tinham de escapar do passado. Não poderiam esperar ajuda daqueles cuja função especial era filosofar e moralizar em termos antigos. Tinham de buscar a luz por sua própria conta, nas direções onde conjecturavam que ela pudesse estar. O primeiro objetivo deles era, como Bacon disse, luz, não fruta — compreender primeiro, aplicar depois. E Descartes, com toda prudência, advertia que a dúvida filosófica não deveria ser transferida para a conduta diária, que por ora obedeceria aos padrões aceitos, por menos esclarecidos que fossem.

Esse deve ser o estado de espírito de quem busca uma visão honesta dos assuntos humanos. Mas atenção: o assunto deste estudante é muito mais intrincado e intratável do que o do cientista natural. O método experimental que ergueu a ciência da natureza não é aplicável assim, sem mais, ao estudo da humanidade e dos seus problemas. O estudante do homem carrega preconceitos mais inveterados a superar, fraquezas mais inerentes e cultivadas da mente a proteger, do que o estudante da natureza. Como os primeiros cientistas, ele terá de lutar contra uma tradição escolástica. Pode esperar pouca ajuda das universidades tal como constituídas; o clero, em geral, resiste a qualquer crítica completa dos padrões de moralidade a que se acostumou; poucos juristas conseguem ver a própria profissão com considerável desapego. E há os poderosíssimos interesses comerciais, apoiados por políticos e, em geral, pelas classes eclesiástica, jurídica e educacional — muitos dos jornais e revistas sob sua influência, arautos do homem de negócios, vivendo da sua recompensa. De fato, os negócios quase se tornaram a nossa religião: defendidos pelo poder civil tal como os imperadores romanos e os príncipes medievais protegiam a Igreja. E o aparato de vigilância — arquivos, listas de suspeitos, um vocabulário piedoso de ressentimento e condenação nobre — desempenha, sem ceremoniais, o papel de uma Inquisição moderna. Livros e panfletos já não são queimados pelo carrasco, mas não chegam às mãos do leitor por outras vias, igualmente eficazes. É o ambiente que o artigo anterior descreveu; aqui o vemos pela lente do estudante: todos esses são obstáculos postos deliberadamente entre você e o exame honesto.

Diante disso, o estudante histórico faz uma recomendação precisa. É verdade que quem defende ilegalidade e desordem, e promete violência, deve ser observado. Mas é possível — e necessário — distinguir esses daqueles que apenas questionam, e até acusam com algum calor a injustiça padronizada e os desajustes do nosso tempo? E há ainda uma terceira classe, que por nenhum exagero pode ser chamada de agitadora: a dos que, simplesmente pensando, concluíram que nossas condições mudaram tanto nos últimos cem anos, e nosso conhecimento cresceu tanto, que as maneiras antigas de fazer e ver as coisas não são apenas irracionais, mas realmente perigosas. Pois bem: a histeria deixou a mente pública em tal estado que até essa classe silenciosa sofre acusações e alguma medida de interferência. Sempre ouvimos que este ou aquele grupo defende a derrubada violenta do governo, não é leal à Constituição, trabalha pela abolição disto ou daquilo — "quer derrubar tudo sem ter nada para pôr no lugar".

Contra essa gramática do medo, a história oferece o antídoto que este Instituto aplica diariamente: o estudo do passado como vacina contra as acusações do presente. Porque o estudante de história descobre que sempre foi costume acusar os impopulares de crenças e ações que não tinham nem praticavam. Sócrates foi executado por "corromper a juventude" e por infidelidade aos deuses; Jesus, por propor derrubar o governo; Lutero foi, para os oficiais de seu tempo, o pregador de "uma vida solta e egoísta, separada de todas as leis". Os que questionaram os delírios populares sobre a bruxaria foram declarados, por clérigos, professores e juízes do século XVII, praticamente ateus — negando o diabo para viverem sem medo do castigo futuro. Diante desse hábito tão inveterado da humanidade, com que serenidade aceitaríamos pelo valor nominal o que investigadores autoproclamados decidem relatar sobre os ensinamentos de pessoas que já condenaram de antemão? A resposta está no arquivo que cada autoeducador deve montar: um catálogo mental de todas as vezes em que a maioria acertou ao condenar — e ele é, garanto-lhes, notoriamente curto.

Há uma razão psicológica pela qual essa tentação não passa sozinha, e vale torná-la explícita. A crítica às ideias aceitas é ofensiva e permanecerá assim por muito tempo — pois falar e escrever são formas de conduta, e toda conduta é inevitavelmente desagradável quando se afasta do comportamento respeitável corrente. Dizer que nossas noções estabelecidas de religião, moralidade e propriedade são defeituosas e precisam de revisão é, de fato, mais chocante do que violar as regras atuais de ação. Estamos acostumados a crimes, contravenções e pecados, que ocorrem o tempo todo; mas não toleramos a tentativa suspeita de examiná-los em teoria. Novas visões parecerão aos sem-pensamento justificativas do mal e incentivos à rebelião — mas nada impede que um aumento da inteligência nos coloque em guarda contra essa armadilha antiquíssima.

E aqui o ensaio oferece o seu regalo teórico, que conecta diretamente a nossa metodologia. Se formos corajosos o bastante para enfrentar os perigos que ameaçam a nossa civilização, precisamos de mais mente do que nunca — e podemos tê-la, indefinidamente mais do que temos, bastando desejá-la honestamente e aproveitar os recursos já disponíveis. Pois a mente, nessa acepção, é o nosso "conhecimento e inteligência conscientes, o que sabemos e nossa atitude diante disso — a disposição de aumentar as informações, classificá-las, criticá-las e aplicá-las". Nessa definição, a mente é questão de acumulação e formação contínua — está em construção desde o primeiro passo do homem na civilização. Notem o que essa definição exclui: exclui a ideia de que a mente seria um dom fixo, um quociente fechado, um diploma. Ela é um projeto em obras — e é exatamente assim que a autoeducação a trata. Poucas pessoas percebem a revolução esperançosa que já afeta as ciências do homem: nenhuma geração anterior de pensadores foi tão humilde quanto a de hoje, tão pronta para confessar a própria ignorância e reconhecer que cada nova descoberta revela mais complexidades do que resolve. Não estou dizendo que a ciência deva ser a vida inteira — ela é apenas a informação mais precisa de que dispomos sobre o mundo e sobre nós mesmos, e não a mais absorvente das satisfações emocionais. Somos poéticos, artísticos, românticos e místicos, e nos ressentimos da análise fria. Mas o mundo foi alterado pelo conhecimento, e é do conhecimento que dependemos para nos acomodar ao novo ambiente e assegurar a paz e a ordem nas quais florescem as coisas que para a maioria são mais caras do que a própria ciência.

Resta a pergunta final, e ela é a mais funda desta série: o que realmente nos impede? Nenhuma geração anterior ficou tão perplexa quanto a nossa — mas nenhuma jamais pôde justificar esperanças maiores, se apenas ousasse usar criteriosamente os seus recursos, materiais e intelectuais. É o medo que nos impede. E o medo é gerado pela ignorância e pela incerteza — que se reforçam mutuamente, pois tentamos timidamente tolerar a nossa ignorância com a nossa incerteza, e desculpar a incerteza com a ignorância. Ponham atenção neste mecanismo, porque ele opera dentro de cada um de nós. A nossa defesa acesa das próprias ideias e crenças não indica confiança estabelecida nelas: indica frequentemente meia desconfiança que tentamos esconder de nós mesmos — como quem, tímido, compensa o senso de inferioridade com agressividade. Se as crenças religiosas estivessem realmente firmes, não haveria necessidade de "ajudas à fé"; o mesmo vale para o nosso sistema de negócios, a nossa política, as nossas relações internacionais. Tememos ver as coisas como apareceriam se pensássemos nelas honestamente — pois é da natureza do pensamento crítico metamorfosear o nosso mundo familiar e aprovado em algo estranho e desconhecido. É um senso nervoso da precariedade do sistema que explica a oposição extenuante a qualquer consideração justa dos seus méritos e defeitos.

Somem-se a isso o nosso grande flagelo, o partidarismo. Assumimos prontamente que tudo tem dois lados e que é nosso dever ficar em um deles; devemos estar defendendo ou atacando algo — e apenas os covardes escondem-se na pergunta impudente: "de que se trata, afinal?" A pose heroica estufa os ombros, gera uma tensão muscular que dissipa a dúvida e produz a voluptuosidade do fanatismo. Nesse clima, as perguntas deixam de ser questões de conveniência e tornam-se questões de certo e errado — e diz-se que há gente digna capaz de reduzir o problema social mais complexo a uma questão moral simples, o que é uma fraude como outra qualquer.

Encerro com o que talvez seja o trecho mais importante que já transcrevi nesta série. É possível, sim, que o indivíduo supere o medo do pensamento. Confesso o meu próprio percurso: um dia, temi que os homens pensassem demais; hoje, só temo que pensem muito pouco — e muito timidamente. Pois agora sei que o pensamento real é raro e difícil, e precisa de todos os incentivos diante de inúmeros desânimos, antigos e inerentes. Devemos primeiro nos esforçar, com toda a energia, por libertar as nossas próprias mentes; depois, fazer o que pudermos para encorajar os outros a libertar as suas. E avante, com ousadia: membros de uma raça que levou de quinhentos mil a um milhão de anos para alcançar o atual grau de iluminação, temos pouquíssimas razões para temer que alguém cultive a inteligência com excesso prejudicial. O risco jamais estará em pensar demais. Estará — e é o risco desta era — em pensar de menos, comodamente, timidamente, sob a proteção reconfortante da filosofia de segurança e sanidade. A autoeducação é, no fim das contas, isto: a decisão, repetida a cada dia, de substituir o medo pelo exame.

Na sequência desta pesquisa, fecharei este ciclo examinando o caminho prático: como converter essas reflexões históricas em procedimentos diários — o passo a passo que transforma o leitor de ideias em construtor do próprio conhecimento.

Com apreço, Nivia Lanznaster Instituto de Autoeducação

Instituto de Autoeducação

Professora universitária nos cursos de Psicologia e Pedagogia. Atua como psicóloga clínica, pesquisadora independente em autoeducação e autora de livros teóricos e didáticos sobre o tema. Desenvolveu a metodologia de autoeducação Guiada para diferentes níveis de ensino, a Trilha Fonética de Alfabetização, desenvolveu a Terapia Autoguiada e fundou o Instituto de Autoeducação.

https://www.institutodeautoeducacao.com/
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