A Filosofia de Segurança e Sanidade: o conforto como obstáculo ao conhecimento

A Filosofia de Segurança e Sanidade: o conforto como obstáculo ao conhecimento

Prezados leitores do Instituto de Autoeducação,

Nos artigos anteriores percorremos um caminho longo: vimos o pensamento criativo nascer da curiosidade ociosa, a crítica nascer na Grécia livre, o conhecimento do livro prender o pensamento nos manuais, a Revolução Científica demonstrar que o método funciona em qualquer escala — e, no artigo passado, a constatação mais incômoda de todas: o mundo mudou de lado, mas a mente não. Falta examinar o mecanismo que mantém essa imobilidade. Pois a mente antiga não sobrevive por acaso: ela é ativamente protegida, ratificada e reproduzida por instituições inteiras. É sobre essa maquinaria de proteção — e sobre o nome confortável que ela recebe — que trata este artigo.

Recapitulemos o ponto de partida. Até aqui, estivemos ocupados em relembrar o processo pelo qual o homem acumulou a mente que tem agora, e os efeitos dessa acumulação sobre seu modo de vida. Sob condições que agora desaparecem, e num estado de ignorância sobre assuntos essenciais que agora são postos em luz inteiramente nova, ele estabeleceu certos padrões e práticas em sua vida política, social e industrial. Suas visões sobre propriedade, governo, educação e relações entre os sexos ele as reafirma e perpetua por meio de escolas, faculdades, igrejas, jornais e revistas — que, para serem aprovados e prosperarem, precisam concordar com e ratificar esses padrões estabelecidos e as noções vigentes de bem e mal, certo e errado. Note o mecanismo: é um circuito que se confirma a si mesmo. As instituições transmitem as crenças, e só prosperam na medida em que as ratificam. Para a grande maioria das pessoas, esse círculo ainda parece ser o único meio de "salvaguardar a sociedade". Antes de submeter essa atitude a um exame mais crítico, convém ver como aqueles que não percebem o círculo vicioso em que estão enredados costumam argumentar.

A história que serve de exemplo vem do período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. A guerra trouxera consigo uma explosão incomum de mobilização: pessoas que jamais haviam estendido suas atividades além da rotina doméstica e profissional viram-se, de repente, participando de um vasto empreendimento, no qual pareciam ampliar o conhecimento e exibir uma capacidade notável de cooperação. Expressões de alto idealismo exaltaram-nos acima das pequenas preocupações cotidianas, despertaram ambições novas e abriram perspectiva emocionante de possibilidade. Falava-se correntemente que, derrotado o inimigo, "as coisas não seriam mais as mesmas": o mundo seria protegido para a democracia e as nações se uniriam numa emulação sorridente.

Nunca decepção mais amarga seguiu esperanças maiores. Todos os velhos hábitos da política nacionalista reafirmaram-se em Versalhes. Na verdade, mal se poderia esperar que um mundo assustado e falido exibisse mais inteligência do que o relativamente próspero que, cinco anos antes, deixara suas tradições santificadas arrastá-lo à beira do abismo. Da autocracia dos czares nasceu a ditadura do proletariado; na Hungria e na Alemanha, tentativas apressadas de revolucionar de uma vez a velha ordem. O verdadeiro caráter desses movimentos era mal compreendido, e era inevitável que, com as profundas tendências animistas do homem — aquelas de que tratamos ao falar do platonismo e das abstrações que agem como forças —, eles aparecessem como um demônio perverso ou um contágio mortal que poderia atingir até a própria terra, a menos que impedido por medidas oportunas. A guerra produzira sua maquinaria para lidar com dissidentes; e era fácil estender a repressão a quem tivesse visões excepcionais ou impopulares. A suspeita acabou por alcançar uma classe pequena e pensativa que, raramente socialista, era confessadamente cética quanto à beneficência geral das instituições existentes — e que simplesmente não aplaudia nos pontos certos, para desgosto da maioria de seus concidadãos. Assim cresceu a impressão geral de que existia uma conspiração para derrubar o governo pela violência ou, ao menos, uma indiferença culposa a essa possibilidade.

A depressão dos negócios, com o fim abrupto da guerra, reforçou a reação natural: a empolgação extraordinária dera uma dor de cabeça nacional, e um sedativo chamado "normalidade" foi oferecido e aceito. Nessas circunstâncias, formulou-se a filosofia de segurança e sanidade. Ela é familiar e reconfortante, e não impõe nenhuma tarefa desagradável de reajuste mental e emocional àqueles que a aceitam — daí sua inevitável popularidade e seu óbvio som. E aqui está o ponto central que a autoeducação extrai deste episódio: essa filosofia é reconfortante justamente porque não exige nada de quem a adota. Ela é a forma política e coletiva daquilo que vimos no primeiro artigo ser o comportamento individual padrão: defender as crenças queridas não porque foram examinadas, mas porque são nossas e porque confortam. O que muda é a escala; a estrutura mental é a mesma.

Vejamos seus pressupostos, porque o enunciado é um retrato perfeito do pensamento que se protege do exame. Nenhuma nação seria comparável à nossa em riqueza, promessa, liberdade e oportunidade; ela abriu seus portões aos povos da terra; sua prosperidade decorre da excelência da Constituição e da solidez das instituições; não existem privilégios de classe; há liberdade perfeita de crença e de imprensa; quem não estiver satisfeito com o governo pode alterá-lo pacificamente pelo sufrágio; a moralidade é mais valorizada aqui do que em qualquer outro lugar; a escola é reconhecida como pedra angular da democracia; somos engenhosos, honestos, incansáveis, um povo em que o sucesso depende quase exclusivamente da capacidade nativa; somos progressistas, sempre prontos para melhorias, que de fato tomamos como garantidas — e que, portanto, regularmente aparecem.

Notem a gramática desse credo. Ele não descreve o mundo: descreve o que o sujeito deseja que seja verdade. Cada frase tem a forma de uma satisfação, não de uma verificação. E é sintomático que o próprio enunciado admita, de passagem, a existência de males — mas apenas para tranquilizar: muitos deles "sem dúvida se curarão", a democracia "está bem no coração", e não se pode enganar todas as pessoas o tempo todo. A diferença entre norte e sul levou a uma guerra civil, mas isso "só serviu para confirmar a unidade natural do país". Observe o movimento: qualquer fato perturbador é imediatamente convertido em confirmação. É exatamente o que a crítica de sonho do primeiro artigo diagnosticava — as desculpas plausíveis para permanecer da mesma mente. O exame crítico transforma contraexemplo em problema a resolver; a filosofia de segurança transforma contraexemplo em prova a favor.

O episódio histórico completa o quadro. As circunstâncias da participação na guerra e a ascensão do bolchevismo convenceram muitos, pela primeira vez, de que a sociedade estava realmente ameaçada. Radicais de vários tipos haviam até então atraído pouca atenção — realizavam suas reuniões e publicavam seus panfletos sem grande interferência. Com o progresso da guerra, a situação mudou: polícia e legisladores começaram a interferir, e guardiões autoproclamados do bem-estar público passaram a denunciar os "vermelhos" e os suspeitos de "tendências radicais". O relatório do chamado Comitê Lusk, no estado de Nova York, é talvez o monumento mais imponente dessa forma de zelo patriótico.

Não cabe a este artigo discutir os méritos do socialismo ou do bolchevismo — nem de suas teorias, nem de sua prática. O que nos interessa, como pesquisadores do comportamento humano, é apenas o método de raciocínio que o documento exemplifica. O relatório parte de uma concessão inicial honesta: admite a existência de "reclamações reais e demandas naturais das classes trabalhadoras por uma participação maior na gestão e uso da riqueza comum". São essas queixas que os agitadores usam como base — reconhece o texto. Mas, em vez de examinar as queixas, o documento dissolve as distinções: socialistas, anarquistas, comunistas e bolcheviques, garante ele, "não podem ser distinguidos uns dos outros" — seus argumentos são os mesmos, suas táticas idênticas, e um discurso de um poderia ser publicado no jornal de outro sem ofensa. Felizmente para o leitor apressado, conclui-se, é desnecessário qualquer distinção. Reparem no que acaba de acontecer: a complexidade do mundo real foi substituída por uma categoria única e ameaçadora — precisamente o movimento animista que este série vem rastreando desde o artigo sobre Platão. A abstração ("o radicalismo") ganhou a força de um personagem, e o exame dos casos concretos tornou-se desnecessário.

O mecanismo engatinha progressivamente para fora do alvo declarado. O perigo, anuncia o relatório, não está confinado à indústria: o movimento pacifista é "parte absolutamente integral e fundamental do socialismo internacional"; e o objetivo dos pacifistas não era realmente a paz, mas a abolição do espírito patriótico. Com isso, a suspecta estende-se a uma classe pequena e atenciosa de professores, palestrantes, escritores, clérigos e editores — "a disseminação do socialismo em círculos educados" —, e chega-se ao ponto em que se está, se não violando a lei, pelo menos marcado como bolchevique por falar levemente de um grande jornal ou citar a opinião dissidente de dois juízes da Suprema Corte. Finalmente, como sempre acontece nesses movimentos, as questões provam ser, no fundo, não econômicas, mas morais e religiosas: o socialismo e todas as suas ramificações são declarados "inimigos da religião e de todos os padrões morais", e não devemos ser enganados por "idealismo especioso disfarçado de progresso". A luta é por Deus e pelo país, e o radicalismo deve ser "feroz e prontamente exterminado".

Fechem o relatório e perguntem, com calma, o que restou do prometido "declarar claro e imparcial". Restou um estado de espírito — e a filosofia de segurança e sanidade em sua forma pura: a revisão das próprias crenças tratada como doença, e o examinador tratado como vetor de contágio. Lembram da citação do primeiro artigo, aquele escritor inglês que desejava que temêssemos conservar um preconceito como tememos uma doença suja? Pois é exatamente a inversão que este documento opera na prática pública: aqui, é examinar que se torna a doença, e herdar que se torna a saúde. O círculo vicioso fecha-se e se autoprotege.

Daí as consequências legislativas, que valem registro porque atingem diretamente o tema que este Instituto cultiva. Invocou-se o estatuto de Anarquia Criminal, emitiram-se mandados de busca, apreenderam-se "grandes quantidades de material escrito e impresso revolucionário". Os chamados projetos de lei educacionais de Lusk estabeleceram que nenhum professor seria licenciado para defender, "de boca ou por escrito, uma forma de governo que não seja o governo dos Estados Unidos ou deste estado" — e que nenhuma pessoa ou associação poderia conduzir escola ou curso de instrução em qualquer assunto sem licença do Estado, cujos inspetores visitariam as aulas e revogariam as licenças conforme julgassem necessário. Meditem sobre o alcance disso: a licença do Estado para ensinar qualquer assunto. Uma sociedade pode, por esse caminho, regulamentar a própria possibilidade de pensar diferente — não concedendo o que se deve pensar, mas proibindo previamente o que não se pode. Para a autoeducação, a lição é elementar: a liberdade de examinar não é um privilégio erudito, é uma condição frágil, que períodos de medo podem suspender — e o primeiro lugar onde essa fragilidade aparece é na escola.

Chego ao encerramento, e quero deixá-lo conectado ao percurso de toda a série. Dissemos no primeiro artigo que o pensamento criativo nos leva a mudar de ideia; no segundo, que duvidar não é natural e custa caro; no terceiro, que o sistema fechado transforma mestres em prisões; no quarto, que a dúvida, e não a fé, é o início da sabedoria; no quinto, que a mente corre atrás do mundo. Este artigo adiciona a peça que faltava: a filosofia de segurança e sanidade é a tentação permanente do autoeducador — o reconforto de nunca precisar revisar, vestido de patriotismo, de moral, de bom senso ou, simplesmente, de "sanidade". Ela é irresistivelmente popular porque não cobra nada. A autoeducação cobra exatamente o contrário: o reajuste mental e emocional que essa filosofia promete dispensar. Quem se autoeduca aceita viver, por vezes, na posição do pequeno grupo atento que "não aplaude nos pontos certos" — e aprende que essa incomodidade não é defeito do método: é o preço e o sinal de que o exame está acontecendo de verdade.

Na sequência desta pesquisa, tratarei da alternativa concreta a essa filosofia do conforto: o que significa construir, na prática, uma vida intelectual de segurança honesta — aquela que não precisa de censura para se sustentar.

Com apreço, Nivia Lanznaster Instituto de Autoeducação

Instituto de Autoeducação

Professora universitária nos cursos de Psicologia e Pedagogia. Atua como psicóloga clínica, pesquisadora independente em autoeducação e autora de livros teóricos e didáticos sobre o tema. Desenvolveu a metodologia de autoeducação Guiada para diferentes níveis de ensino, a Trilha Fonética de Alfabetização, desenvolveu a Terapia Autoguiada e fundou o Instituto de Autoeducação.

https://www.institutodeautoeducacao.com/
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