O Mundo Mudou, a Mente Não: por que a autoeducação é urgência histórica
Prezados leitores do Instituto de Autoeducação,
O artigo anterior desta série terminou com uma constatação esperançosa: a Revolução Científica demonstrou que o método do exame direto funciona em qualquer escala — no indivíduo e na civilização. Gostaria de poder encerrar essa etapa em tom triunfal. Mas a honestidade intelectual, que é a primeira regra desta metodologia, exige que olhemos para o outro lado da medalha. Pois o que aconteceu, afinal, quando o conhecimento científico transformou o mundo?
A resposta é desconcertante: embora nossa informação sobre o homem e o mundo seja incalculavelmente maior do que a disponível há cem — mesmo cinquenta — anos, devemos admitir francamente que esse conhecimento ainda é novo demais, imperfeitamente assimilado, inadequadamente coordenado e apresentado de forma tão fraca e ineficaz à grande massa, que seus efeitos diretos sobre o raciocínio e a perspectiva das pessoas permanecem modestos e decepcionantes. Podemos pensar em termos de moléculas e átomos, mas raramente o fazemos. Poucos conhecem o próprio corpo mais do que os avós conheciam. A confiança do agricultor nas fases da lua cede muito lentamente diante das descobertas sobre as bactérias do solo. Poucos dos que usam o telefone e carregam uma câmera têm a mais leve curiosidade sobre como funcionam. É apenas indiretamente, por meio da invenção, que a ciência toca nossas vidas — modificando o ambiente, alterando hábitos, deslocando a velha ordem e impondo o fardo da adaptação constante até aos mais letárgicos.
Guardem essa frase, pois ela resume a tese do dia: a ciência mudou o cenário antes de mudar os atores. E este descompasso — entre um ambiente radicalmente novo e uma mente ainda antiga — é, na minha avaliação, o problema educacional central da nossa era. É contra ele que a autoeducação existe.
Vejamos como o cenário mudou. Alguns séculos antes de Bacon e Galileu, quatro descobertas foram feitas que, elaboradas pela engenhosidade posterior, sustentam a civilização moderna. Um escritor do tempo de Henrique II da Inglaterra relata que os marinheiros, pegos no nevoeiro ou na escuridão, tocavam uma agulha num pedaço de ferro magnético: a agulha, suspensa, girava e repousava apontando o norte. Nesse pequeno índice repousa toda a vastidão do comércio moderno e do imperialismo. Pedaços de vidro em forma de lente, que ampliavam objetos — fato conhecido antes do fim do século XIII —, geraram microscópios, telescópios, espectroscópios e câmeras, e destes veio grande parte do nosso conhecimento dos processos naturais e do cosmos. A pólvora, usada algumas décadas depois da lente, mudou por completo o problema da guerra e da defesa pública. E a imprensa — originalmente um expediente caseiro para poupar o trabalho do copista — não apenas tornou possíveis a democracia e a nacionalidade modernas, mas, ao estender a educação, minou os fundamentos antigos sobre os quais a indústria humana repousara desde o começo da civilização. Reparem na ironia que perpassa toda esta lista: nenhuma dessas descobertas foi feita com a intenção de transformar o mundo. A curiosidade ociosa de que falamos no primeiro artigo produziu novamente efeitos que ninguém planejou.
Depois veio a avalanche. Em meados do século XVIII, a máquina a vapor começou a suplantar o poder muscular de homens e animais — até então pouco mais que complementado por moinhos de vento e rodas d'água. Hoje, motores a vapor, a gás e hidrelétricos geram correntes elétricas potentes que trabalham longe da fonte. Fábricas imensas surgiram com suas multidões dedicadas a pequenas contribuições ao produto final; cidades cresceram sobre os campos verdejantes; longos comboios trovejam pelos continentes; massas monstruosas de riqueza se acumulam e se reinvestem, tornando o sistema cada vez mais inconcebivelmente intrincado e interdependente. E, aliás, há pressa, preocupação, descontentamento e perigo além da crença — tudo isso para uma criatura que precisa agarrar tudo com uma mente criada na de um animal, de uma criança e de um selvagem. Aqui está a frase que recomendo memorizar. É a mais concisa definição da nossa situação que conheço: o mundo tornou-se científico, a cabeça continua pré-histórica.
O químico, por sua vez, já não fabrica apenas mercadorias novas — fabrica substâncias novas. Faz malabarismo com átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, superando o funcionamento da natureza: mais de duzentos mil compostos produzidos artisticamente, onde antes a humanidade dependia da alquimia lenta de animais e plantas. Ele pode fixar o nitrogênio do ar e usá-lo para criar trigo que alimenta — ou explosivos que abatem — seus semelhantes. Uma descoberta química pode, a qualquer momento, devastar uma indústria imemorial e deixar capital e trabalho em apuros. As partes mais distantes da terra foram visitadas, o comércio aproximou todas as raças, e o vapor e a comunicação elétrica aperfeiçoaram-se de tal modo que o espaço foi praticamente aniquilado no que tange à palavra — e reduzido a uma fração no transporte. Todos os povos da terra formam, economicamente, uma federação frouxa e pouco reconhecida, em que o destino de qualquer membro afeta o de todos os outros, por mais remotos que sejam.
Há mais. Todas essas condições conspiraram para dar aos negócios um fascínio e uma importância esmagadores. Não fazemos mais as coisas por fazê-las, mas por dinheiro. A cadeira não é feita para sentar, mas para gerar lucro; o sabão não é preparado para limpar, mas para ser vendido. Praticamente nada do que lemos foi escrito por si mesmo, e não por dinheiro. Nossas revistas e jornais são viajantes comerciais que proclamam o evangelho da competição empresarial. As classes trabalhadoras, que antes labutavam por escravidão ou desamparo, aprendem agora a combinar, negociar e competir com seus empregadores — a dar o mínimo possível pelo máximo possível. Quando as casas eram construídas para morar e o trigo cultivado para comer, essas indústrias cuidavam de si mesmas. Agora que o lucro é o motivo de tudo, resta perguntar: se os retornos prometidos forem maiores na fabricação de automóveis ou de lingerie bordada, que razão convincente restará para construir casas ou plantar alimentos? Notem como este diagnóstico envelheceu mal — no sentido de que envelheceu cumprindo-se. Para o estudante de hoje, ele descreve com precisão o ambiente informacional em que navega: quase todo conteúdo que o alcança foi feito para vender alguma coisa, inclusive opinião. Reconhecer isso é o primeiro passo da defesa intelectual que a autoeducação treina.
Junto com as invenções vieram dois elementos novos do nosso ambiente: o que chamamos vagamente de democracia e nacionalidade. A imprensa tornou possível a educação popular — e o mundo ocidental se aproximou muito, nos últimos cem anos, do ideal de todos meninos e meninas aprenderem a ler e escrever. A educação geral tornou plausível a reivindicação de que todo adulto devesse ter um voto. Mas há uma descoberta ainda mais fundamental sob as tendências democráticas — e é a mais importante deste artigo para a nossa metodologia. É a verdade científica, facilmente demonstrável, de que quase todos os homens e mulheres, qualquer que seja seu status social e econômico, têm potencialidades de atividade, pensamento e emoção muito maiores do que exibem nas condições em que são colocados; que em todas as fileiras há capacidade não realizada; que vivemos numa escala de conduta inteligente e prazer racional muito abaixo da possível.
Parem sobre esta frase. Ela é, na essência, o manifesto da autoeducação. Não foi um pedagogo que a formulou — foi a ciência que, ao examinar os seres humanos, descobriu que somos todos, sistematicamente, menores do que poderíamos ser. Meu trabalho de dez anos, e a pesquisa que este Instituto desenvolve, partem exatamente daí: se a capacidade não realizada está presente em todas as fileiras, então o problema educacional não é de acesso, é de método. Encher escolas de gente que pensa por procuração não resolve; é preciso devolver a cada pessoa o comando do próprio desenvolvimento.
Quanto à nacionalidade, é ideia recentíssima — cerca de cem anos. Antigamente, as nações eram compostas pelos súditos desta ou daquela majestade, considerados pelos governantes como bestas de carga, escravos ou, em humores amáveis, crianças. As mesmas forças que criaram a democracia permitiram que grandes populações fossem mantidas juntas, mais estreitamente do que nunca, pelas notícias diárias sobre os negócios do governo. O habitante de um território de centenas de milhares de quilômetros quadrados foi trazido tão perto quanto o povo de Atenas. E aqui a série encontra uma de suas notas sombrias, que já ecoou no artigo sobre os gregos: o homem é um animal gregário, dado à estimativa mais exagerada da própria tribo — e sobre esses fundamentos antigos a nacionalidade moderna foi construída com imprensa, telégrafo e postagem barata. De sorte que, justamente quando o mundo se tornava efetivamente cosmopolita — na interdependência econômica, na pesquisa científica, na troca de livros e arte —, a velha insolência tribal foi desenvolvida em escala estupenda. Os sussurros do rebanho, de que tratamos no primeiro artigo, ganharam amplificação industrial. E é justamente dentro dessa amplificação que o autoeducador de hoje precisa aprender a pensar: não se trata mais de resistir a um vilarejo que cochicha, e sim a uma infraestrutura planetária de repetição.
Chego à síntese. A maneira como o homem revolucionou seu ambiente, seus hábitos e seus propósitos por meio de invenções é talvez a coisa mais surpreendente da história humana — e permanece assunto obscuro e negligenciado. Mas basta o que foi dito para ver o essencial: desde a Idade Média, e sobretudo nos últimos cem anos, a ciência acelerou tanto a mudança que se torna cada vez mais difícil para o pensamento comum acompanhar as alterações radicais das condições reais de vida. O mundo mudou de lado; a mente não. Nenhum currículo tradicional, herdado de uma época em que o ambiente era estável, foi desenhado para essa lacuna. A autoeducação foi — foi para isso que a construí: para devolver ao indivíduo o ritmo e o comando do próprio pensamento num mundo que muda mais depressão do que as escolas conseguem revisar seus programas. Examinar, duvidar, verificar, reconstruir: não como luxo erudito, mas como condição elementar de adaptação — e de dignidade.
Na sequência desta pesquisa, tratarei do que a ciência fez — e ainda não fez — quando voltou seus instrumentos para o próprio homem: o estudo dos processos humanos e suas promessas não cumpridas.
Com apreço, Nivia Lanznaster Instituto de Autoeducação